Quase

Meus pés descalços tocam a superfície fria do chão, a água quente cai sobre minha pele enquanto sou engolida pela escuridão da noite e da lâmpada apagada. Tudo em minha volta age lento, como se agora eu pudesse medir a velocidade desse exato instante – o que não comporta o próprio conceito de tempo, minutos, segundos – porque isso transborda a definição da palavra. Aqui, agora, tudo acontece antes de eu sequer piscar os olhos, antes da própria ideia de espaço, antes do toque dos meus dedos na parede, antes dos neurônios impulsionarem em direção a criação de um pensamento e bem antes dos meus pulmões expandirem para me manter viva. É nesse instante não instante que o passado, presente e futuro dissipam-se e a ideia de linearidade sai pela janela céu afora. É no esquecimento do existir que eu desacelero ao ponto de quase parar. Continuar lendo

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Everything has changed

Uso a escrita como válvula de escape. Muitas vezes escrevo parágrafos coerentes, em outras, incógnitas indecifráveis. Acredito que esse texto seja a segunda opção, pois estou aqui, no ápice da madrugada, tentando entender, separar por categorias, analisar e fazer diagramas que justifiquem você e sua ridícula mania de aparecer quando não é chamado. Tudo porque quando se trata de ti meus pensamentos não seguem uma linha racional, dissipam-se antes mesmo de serem considerados esboços de uma ideia. São nós que estão amarrados pelas linhas do meu cérebro. Fico assim: escrevendo rodeios por não ter a mínima noção de como escrever. Continuar lendo

Aparentemente ela mora no terceiro andar (se não me falha a memória)

Horas atrás pensei em escrever para o seu prédio, mas quando resolvi colocar a ideia em prática ela pareceu ridícula demais. O que eu supostamente iria escrever, afinal? Mal sei se a cor dele é verde ou azul. Nem sei se você ainda mora nele. Só sei que é no terceiro andar. Acho. Quando passo em frente, é involuntário o ato de olhar para cima e imaginar se você está em casa. Talvez eu devesse apertar a campanhia. Mas o que eu diria? Talvez eu devesse escrever uma carta e entregar para o porteiro. Há porteiro no seu prédio? Nunca prestei atenção. Só fui aí uma vez. Continuar lendo

Resenha | Como eu era antes de você – Jojo Moyes

Existem livros tão marcantes e especiais que te desnorteiam, principalmente por fugirem do esperado e te arrancarem de uma zona de conforto feita de expectativas pequenas. Eles quebram sua rotina, te puxam a força para um lugar desconhecido. Hoje escrevo sobre um desses livros: Como eu era antes de você, da autora Jojo Moyes. Continuar lendo

Estação Liberdade

Desde que a minha vida saiu dos trilhos sinto que posso ir a qualquer lugar.

– Zack Magiezi


Contextualizo essa frase em tantas perspectivas distintas que o fôlego me escapa entre os pulmões. Desde que a li reinventei-me tantas vezes que perdi as contas. A partir do nascimento de diversas versões minhas, todas originadas da vontade de transcender além do que a realidade permite, fui capaz de me enxergar como um ser humano pela primeira vez. E desse conceito, o de que mudar não faz mal veio logo em seguida. Estamos fadados à não sermos constantes. Compreender isso foi revolucionário. Continuar lendo

Avenida Paulista e seus pontos finais

O céu azul contrariava os boatos de que na capital paulista tudo era coberto por uma névoa cinza. Lembro bem da sensação de olhar os prédios e todas aquelas torres na Avenida Paulista enquanto meus cachos eram violentados pelo vento forte que, sem piedade, atravessava a bicicleta emprestada enquanto meus pensamentos finalmente seguiam alguma ordem lógica. Continuar lendo

Eu não sei nada sobre o amor

– Já não sei mais se acredito no amor. – a voz de dentro da minha cabeça assume, cansada, enquanto a imagem de uma xícara de chá matte é contemplada.

Não é como se eu estivesse congelada e não sentisse nada dentro de mim – apesar de que há muito tempo isso acontece. O que quero dizer é que talvez, por um breve instante, eu tenha notado o mundo sem aquela cortina que fantasio, agora com menos pessoas de carne e osso e mais personagens entrando em cena espalhados pelo cotidiano. Continuar lendo